Thursday, March 31, 2016

QUE COUSAS ANDAM TORTAS...

… E que cousas
andam os anos
do filho da Suzete zungueira
recém-nascidos, na poeira
na zunga dos quotidianos
que cousas andam tortas essas causas?

Os filhos da pedinte
mutilada na Baixa da Mutamba
mãos de imploro à gente
que passa e zomba
que cousas cabelos de fome russos
e bochechões nos discursos.

As gentes negras só negras
multidões ambulantes
nas ruas das estradas
a vender drogar as vidas
cousas de que horizontes
essas causas que leis que regras?

O filho da Mingota vendedora
na zunga da fome
bebé, são cousas que nome
causas que futuro
desespero
a vida as gentes esfarrapadas de poeira.

E as falas reluzentes
nas gravatas dos fatos
barrigas inflamadas refastelo
na esquindiva dos actos
o filho da Suzete Mingota das gentes
cousas assim para quando futuro dia belo?

 
 Décio Bettencourt Mateus
in Os Portões do Silêncio

Luanda, 4 de Dezembro de 2009.

Monday, December 07, 2015

EM FALAS GABAROLAS

Nas ondas que gabas e falas
teus fatos elegantes
luzidios repletos luzidios
falas de que gentes
se caminham míseros silêncios
quando enfartado falas de AC às salas.

Nas ondas que propagas
e advogas falares-me em nome
discursos papeladas ruídos
se famintas barrigas
fome em rosto disforme
quando arrotas teus passos abastados.

E falas e desdizes números
Gráficos rankings crescimentos…
se vivências desesperos
e sofrimentos
habitam os musseques as noites nos dias
quando de smoking gravatas jactâncias.

E te abrilhantas de TV em propalas
conversas de Marte e estrelas
senhor doutor mazé patranhas
de blá conversas artimanhas
se de bocas famintas
não sabem como caminham quantas.

E sozinho te banqueteias
lambuzas o mel as colmeias
te coroas príncipe herdeiro
terras mares petróleos diamantes
que se borrem longínquas gentes
de vivência mísero viveiro.

Rádios jornais TV em falas gabarolas
Desverdades conversas desfalas
se fumega o vulcão o magma
em quase erupção lágrima
te assustas nas sombras
dos teus passos discursos de baboseiras.


Décio Bettencourt Mateus
(In Os Portões do Silêncio).


Luanda, 9 de setembro de 2010.

Saturday, September 26, 2015

ANTES QUE OS HOMENS A COR

(Antes do Princípio)

Antes que viessem os homens
teríamos descalços
viajado matos montanhas
mãos dadas laços
juras e confidências d´entrelinhas
segredadas dispersas aos aléns.

Antes que soubéssemos as cores
teríamos deitado o capim
a estalar-nos as costas
a soletrares gemidos em mim
promessas e apostas
a colorirem-nos d´alvoreceres.

Antes que mapeassem diferenças
seríamos brincado felicidade
nus a sorrir crianças
tuas melodias sopro-murmúrio
nas correntezas do meu rio
antes que nos mentissem a verdade!

E deitaríamos o chão dos nossos lagos
adocicados, mel abelhas favos...
antes que os homens as teorias
e o cinzento dos dias
acariciaríamos os cravos
licores d´amor taças champanhe e tragos.

Antes, muito antes que nos viessem os homens
dia e noite uma linha d´horizonte
longínqua ténue reluzente
azul vida amanheceres
antes que soubéssemos as nuvens
e o brilho desfavorecido das cores,

que os homens inventaram depois
muito depois a distanciarem-nos os dois.

Antes que os homens a cor
corríamos felizes as constelações do amor.

Décio Bettencourt Mateus.

Luanda, 7 de janeiro de 2010.

in Os Portões do Silêncio.

Tuesday, June 23, 2015

NGANA MINGO TAMBARINO

Ngana Mingo Tambarino madruga pastor
Bois vacas cabritos cajado...
apascenta o gado
aconselha-se nas manadas
soberano de cabeças e madrugadas:
um ruído disperso de castor!

Ngana Mingo Tambarino caminha caçador
braços vigorosos, arco, zagaia...
requinte no faro
precisão saber no disparo
o lúmen na noite uma fagulha luzidia:
uma corneta toca mãos de tocador!

Ngana Mingo Tambarino pássaro que voa-voa
Marte Vénus Júpiter
(um gemido oculto de mulher)
rosto erguido vaidade em proa
navega oceanos e galáxias
revoluciona noites e sabedorias.

Ngana Mingo Tambarino homem poder
homens encolhidos grunhidos
uma nuvem brinca às tranças
e ensaia melodias de danças
um sussurro-mulher
um homem navega paraíso e gemidos!

Ngana Mingo Tambarino canta baba geme,
uma cavidade de mulher
e Ngana voz treme-que-treme
prazer orgasmos
vulcão-tsunami-pasmos...
Ngana Mingo Tambarino, homem poder,

obedece que treme-treme à voz d´uma mulher!

Décio Bettencourt Mateus

in Os Portões do Silêncio

Luanda, 26 de Setembro de 2011.

Sunday, March 08, 2015

AS HIENAS VIERAM A CORRER OS ABUTRES

As hienas vieram as hienas
fugidias do longe das matas
áridas de chuvas magras
silenciosas amenas
língua de fora astutas
fugidias das terras securas.
   
Vieram escapulidas fome nas patas
terras deserto nos rios
as hienas gargalhadas marotas
esquinadas nos lábios
caudas mansas
salivando gargalhando sonsas.
  
As hienas vieram a correr os abutres
pendurados nas árvores
terras à mercê presas
pulsarem palpitarem indefesas
a noite gemidos de morte
a noite uivadas à corte.

Cercaram cinturões às terras
trocistas multidões d’hienas exércitos
gritarias hienadas gritos
as hienas soslaio matreiras
os abutres os chacais as feras
as gentes desesperam as terras.
  
As hienas assentaram o covil
conversa astuto ardil
águas pastosas reluzentes
sorriso nos cantos sorridentes
as hienas as feras os abutres:
terra gente húmus desesperam pobres!

Décio Bettencourt Mateus.

Luanda, 12 de Outubro de 2010.


Saturday, December 06, 2014

QUASE TE AMEI MIÚDA!

                                                                            A uma Tânia


Quase te amei segredo
nas noites cúmplices
andando a Mutamba escura                  
remorsos, sobes e desces
em eterna busca-procura
procurando-te os olhos cor gemido.

Quase te amei miúda
esgravatando eternidades adentro
ruídos calemas mar
a dialogarem-me a voz do luar
caramba!, é gaja noite da vida
vasculhando a palpitar-me dorido centro.

E sonhar-te de bicos finos manteúda!
Avenidas prostitutas palpites
maldizendo-te caramba, negócios
merda avenidas e andanças, miúda
meu mar oceanos e silêncios
nas rodas solitárias das noites.

Teu ventre a tremer-me espasmos
Marte Júpiter Saturno Vénus…
a trotarmos galáxias e céus:
a infinidade, minúcias d’orgasmos
detritos, gargalhadas cristalinas
esvaídas na Mutamba das esquinas!

Quase te amei miúda
o destino na voz do teu universo:
sou tudo de todos, arco disperso
nas avenidas da ilha defraudada
uma estrada prostituta à noite
uma janela um telhado aberto convite.

Quase te amei miúda
e sonhar-te de saltos-altos manteúda!


Décio Bettencourt Mateus in Os Portões do Silêncio.

Luanda, 01 de fevereiro de 2010.

Saturday, September 20, 2014

UM MENDIGO ROBOTEIRO


Um mendigo veio
a cantar-me as dores do silêncio
mãos pedintes
mendigadas às gentes
antigo combatente lágrimas amuadas
ciciadas discretas às madrugadas.

Um mendigo veio nos olhos
a questionar pasmar ignorante
as cousas vivências requinte
costas doridas a estalarem galhos
passos descalços pés trôpegos
e multidões infindas de mendigos.

Era roboteiro um farrapo qualquer
a saltitar espreitar o candongueiro
há-não-há ganha-pão mercadoria
um mendigo miserável roboteiro
a chafurdar lambuzar porcaria:
uma estrela goteja lágrimas d´enternecer!

Eram braços robustos
emprestados a um corpo magro
pernas gemido caminhar um negro
um mendigo roboteiro veio
pasmando fatos smoking atavio…
as rugas nutridas nos rostos.

E foi-se carregando o mundo as escórias
num carro de mão sustento
untado besuntado lamento
lágrimas segregando histórias
um mendigo roboteiro trabalhador:

o planeta convulsiona rotações d’arco lágrimas e dor!


Décio Bettencourt Mateus

in Os Portões do Silêncio

Saturday, July 19, 2014

MAR, PORÕES, CORRENTES…


Mar, porões, correntes…
noites de chibatadas
e triângulos de escravatura!,
murmúrios, batuques e gentes:
o amanhecer é uma noite escura
a tatear teias e madrugadas!

Sons, África, gemidos…
a zumbirem melancólicos
chicotadas e cânticos
azul, sal e ranger dentes:
tons África deploram noites surripiadas:
o escuro funde horizontes!

Negros, mar, águas incógnitas…
rumorejam infindas
nostalgia e ondas
caminhos de morte
e sopros de norte:
o destino são vozes roucas desertas!

A morte adormece o mar;
negros, negreiros, navios
o Atlântico repousa oceano
em dorso dorido sereno,
lamentações e luar:
almas escravas choram silêncios!:

Ó Salvador, Salvador, Salvador*
a mesma dor Salvador
pretas, cocos, catanas, baldes e miséria
a mesma dor Luanda-Bahia
o mesmo ritual de páginas escravatura
o mesmo ritual turvo d´amargura.

Ó Salvador, Salvador, Salvador...

* capital do estado brasileiro da Bahia.

Décio Bettencourtt Mateus

in Oxalá Cresçam Pitangas (antologia bilingue Alemão - Português)

Sunday, April 06, 2014

ESTE CHOCALHAR DE PÉS

Este chocalhar revolto
em pés empoeirados
e cacimbados
no quente do asfalto
vem do longe dos musseques
e traz o som dos batuques.

Este chocalhar de pernas femininas
a lutar bagatelas
e gritarias
em pedaladas fugidias
vem do longe das sanzalas
e foge a dança das minas.

Vêm perdidas das matas
perdidas das kubatas
estas chocalhadas em chão quente
de sol arrogante
vêm corridas das lavras
e trazem a fome das terras.

Este arrastar de pés zungueiras
com falas de asneiras
em conversa matumba
vem do longe dos musseques
e dança a dança dos batuques
a resmungar o chão da Mutamba.

Este fedor forte
conhece os grãos da estrada
os grãos da caminhada
e vem d’alguma parte
escapulido das minas
vêm d’alguma parte estas chocalhadas femininas.

Esta catinga fedeu-se distante
fugidia deslocada
do kimbo aos gritos mãos na cabeça
desesperançada
sem graça
esta catinga fedeu-se em andanças galopantes.

Este chocalhar em pés encardidos
e rachados
este chocalhar revolto
em pés de zungueira no quente do asfalto
vem do longe dos musseques
e dança a dança dos batuques!

   
Décio Bettencourt Mateus.

in Gente de Mulher.

Luanda, 5 de Agosto 2006.

Sunday, January 12, 2014

SOU UM PÁSSARO...



Sou um pássaro
na infinidade do azul claro
na infinidade do azul infinito
meu grito
ecoa a liberdade
das infinidades da infinidade.

Sou vida marinha vida aquática
navego as profundezas
e encantos dos oceanos
revoltos e serenos
navego a força mítica
da força das correntezas.

Sou astro no Universo imensurável
vivo a explosão da vida
no além insondável
das galáxias escondidas
vivo a vida no além empoeirado
do cosmos distanciado.

Sou vulcão sou lava
em fervuras nas entranhas da terra
grito a essência
grito a efervescência
da bravura na rocha viva
grito a explosão da vida na rocha viva.

Sou as ondas do mar
em altas braçadas, Atlântico
Pacífico, Índico
sou a sinuosidade do curso
da imensidão do Universo
em braçadas de expansão, a amar!

Sou um pássaro
na infinidade das infinidades do azul claro!


Décio Bettencourt Mateus

In Gente de Mulher

Luanda, 25 de Novembro de 2005.

Tuesday, November 12, 2013

OS PASSOS DA MINHA POESIA

São de poesia
os passos distraídos
que galgo num Sol ardente
do meio-dia
dum qualquer dia distante
a ecoar meus passos enluarados.

São de poesia
as voltas sem destino que trilho
a errar a Mutamba
a sofrer tuas malambas…
a dualidade do brilho
da vida a sorrir-me durezas e cortesia.

E também a dor
o peso que sinto
nas imbambas de sustento
carregas na cabeça de zunga
a galgar distância longa
é também poesia a dureza deste labor!

A desarmonia
tua fome que me rói também
nas fúrias do homem
emporcalhado
d’embebedado
são espinhos da minha poesia.

Outrossim são poesia
as caminhadas solitárias
a descobrir poesia nas areias
do chão por ti galgado
e trilhado
são de poesia as minhas trajectórias!


Décio Bettencourt Mateus.

in Gente de Mulher

Luanda, 30 de Agosto de 2006.

Thursday, June 27, 2013

AS SOBRAS DAS SOMBRAS

Faço de contas a fingir
que no nascente
do poente
o Sol brilha para mim também
e no além
brotam migalhas de justiça a florir.

Depois sonho com sombras
debaixo dum Sol escaldante
abomino as sobras
das sombras estranhas
me envias (in)complacente:
as sombras também são minhas!

Oh!, a chuva matinal
Deus enviou-me a chuva torrencial
sou dono das cargas d´água
e minha amargura desagua
na foz dum rio qualquer
na foz dum rio a entardecer.

Faço de contas a sonhar
que as melodias das ondas do mar
numa praia linda
da ilha da minha Kianda
cantam para mim entusiásticas
melodias eufóricas.

Oh o solo é meu, recebi de herança
é minha a esperança
perdida no chão de riquezas
(riqueza? Que riquezas? Pobrezas!)
é meu o solo rico que galgo
é meu o lamento triste que rogo.

Deus enviou-me o sol também
o Sol é meu
também as sombras
abomino as sobras
que do alto teu céu
me envias arrogante. Turbilhões de justiça no além!

Abomino os restos
recuso! Protesto meus protestos
as sobras. As sobras das sombras
que tua falsidade me grita
e envia hipócrita:
recuso as sobras!

As sombras. As sobras das sombras!


Luanda, 19 de Maio de 2006.

Décio Bettencourt Mateus

In Gente de Mulher


Thursday, May 23, 2013

O TRUMUNO!

Pés voam descalços
o quente d’areia
trumuno o jogo da bola
que gira e rola
pernas marotas riscam espaços
em bolas apressadas de meia.
  
Correrias em pernas loucas
cololas, cabritos
fintas e trucas
na disputa da bola
na fuga à escola
a garotada feliz aos gritos.
  
Dribles, fintas e truques
em pernas craques
o mundo na garotada
em peitos suados de fora
a escola à espera
o velho em fúrias de porrada.
  
Nos pés do maestro
mestria no passe ao companheiro
o maestro finta e escova
enfia na ova
do defesa
o maestro finta e chuta p’ra baliza.
  
Uaaá! Uaaá! Chulipas, quinhões e cabritos
brigas e porradas
cafriques
quedas e truques
acode, acode, é batota, é batota. Apitos,
algazarra na garotada.
  
– Oh!, saudades! Eu nas pernas da garotada
no peito da miudagem
a fazer vadiagem
a correr descalço um campo d’areia;
depois o medo a tareia
eu em medo, o velho e a porrada!
  
Eu no trumuno do futebol
É golo! Golóóóóóóóóóóóóóóóóóó!
 
   
Décio Bettencourt Mateus
       
in Gente de Mulher
     
Luanda, 05 de Setembro de 2006.

Wednesday, September 05, 2012

MUSEU DA ESCRAVATURA

Na tristeza do meu kissange
o lamento do pensamento
das gentes
que partiram p’ra longe
que partiram p’ra outros horizontes
em cânticos de desencanto.

Nas tuas ondas cansadas
oiço passos antigamente
passos escravos
acorrentados cativos
em liberdade de correntes
passos escravos no lamento tuas ondas.

No longe tua superfície ondulada
cheiro a navios negreiros
dos homens acorrentados
maltratados
na tua superfície azulada
a fumaça dos navios guerreiros:

Ó museu da escravatura
fala-me a história
enterrada na memória dos dias
fala-me os negros escravizados
vendidos
nas noites sofridas de brancura.

Fala-me os rostos transpirados
desgastados
nos homens valentes
arrastados prisioneiros
em navios negreiros
em navios nos aléns fumegantes.

Ó museu da escravatura
impávido viste meus irmãos
fazerem travessia do infinito
em inferno de porões
fala-me esta angústia no peito
esta angústia loucura.

Ó museu da escravatura
ainda sinto no pulsar tuas águas
dor das mágoas
dos meus antepassados
maltratados acorrentados
ainda doem os ossos nas noites de torturas.

Ó museu ingrato fala-me o ranger de dentes
Nos navios perdidos nos horizontes!


Décio Bettencourt Mateus

in Gente de Mulher

Friday, July 13, 2012

GENTE DE MULHER


Lançamento de GENTE DE MULHER, meu mais recente livro de poemas, hoje 13 de Julho de 2012, na sede da União dos Escritores Angolanos, às 18h00. Apresentação por José Luís Mendonça. Estão todos convidados. São todos benvindos.

Friday, June 08, 2012

A ESCALADA

E na escalada da montanha
Tropecei pedregulhos e penhascos
De areias escorregadias
Beijei o fresco da manhã
E a quentura dos dias
Nuns pés cansados e roucos!

Meus joelhos escorregadios
Sangraram dolentes abrupta escalada
Minha boca amuada
Desbaratando caminhos
E espinhos
E jorrando dores fartas de lamúrios!

Respirei ar-poeira beijando a boca
Barro sufocando lábios
De dolentes assobios
E uma voz rouca
Clamando o cimo da montanha
Clamando o fresco da manhã!

Meu corpo dorido num arrasto
Deslizando detritos
Pedregulhos, poeiras e areias
Minha garganta um rosto
Inflamado de gritos
Lamentando a crueldade dos dias!

Lábios inflamados morderam terra dura
Minha seiva regou terra
De montanhas e penhascos e areias
Rebolei precipício abaixo
Gemi baixo
E limpei as feridas no silêncio das aldeias!


Décio Bettencourt Mateus

in Xé Candongueiro!

Luanda, 7 de Agosto de 2007.



Tuesday, May 29, 2012

MEU POEMA ACORDA DORIDO!

                                                           À memória de Luzia Bettencourt M.,
                                                           minha mãe.





Manhã virgem manhã cedo
meu poema acorda dorido
manhãs frias
vai à igreja vai à missa
em pernas de pressa:
ó Senhor pão às minhas crias.

Meu poema sofre a madrugada
a espreitar a aurora
acarreta água ensonada
enche bidão enche tamborão
de olho na torneira
música sofrida no coração.

Dorme insónias na noite escura
acorda constrangido a praça
a vender gelados
compra esperança
recebe troco ternura
bem diz os kwanzas bem diz trocados.

Caminha um sol abrasador
preocupação no rosto
meu poema tem dor
a rusga a falar serviço militar
a rusga: kwata-kwata miúdos a passear
kwata-kwata miúdos, oh desgosto!

Meu poema desperta alvorecer
lava roupa amontoada no tanque
rebenta mãos de sofrer
vende gelo no Roque
e sofre filho fugidio emigrado
filho mwangolé exilado.

Meu poema dorme cansado
é pai mãe marido mulher...
cuida os miúdos
atende o marido
dorme dorido prazer
dorrme dorido sonho de trocados.

Meu poema dobra joelhos em manhãs frias:
ó Senhor pão às minhas crias!


Décio Bettencourt Mateus
in Gente de Mulher


Luanda, 10 de Agosto de 2006.

Friday, May 25, 2012


Gente de Mulher, meu mais recente livro de poemas. A publicar brevemente...

Monday, February 06, 2012

QUE COUSAS ANDAS AS QUANTAS*

Falas-me a papel,

nas cousas lindas
que cantas
nas letras mortas
das palavras fartas
que sozinho caminhas e andas;
que cousas andas as quantas.

E que me falas a Maquiavel
oculto em discursos
quando opulento nos bolsos
bochechas d´arroto
zombas-me o rosto
na zombaria de falas a mel.

Falas-me a Maquiavel
quando me ignoras a palidez
magreza nos ossos,
na fartura dos discursos
estupidificarem-me aridez
na astúcia da palavra afável.

Falas-me a papel
no ornamento das palavras
chacotas que lavras
no alto da imponência
da cor da arrogância
quando me falas afável a Maquiavel.

Falas-me à abastança
da tua oca bonança
em papéis de vã sabedoria
pisotearem-me a miséria
no rosto ansioso de fome
que tua abastança me consome.

que cousas andas as quantas
quando me falas a papel
cousas leves a Maquiavel
que sozinho caminhas e cantas.


Décio Bettencourt Mateus.


Luanda, 2 de Dezembro de 2009.

* Poema inédito, Mencionado no XXVII Prémio
Mundial de Poesia Nosside. (Com algumas alterações)

Thursday, May 05, 2011

E EU ERA O TEU KWANZA*...

E eu era o teu kwanza
Caudaloso
E tortuoso
Destreza
A farfalhar as margens
Das tuas paragens!

Um kwanza vaidoso
E sinuoso
A fundir a doçura
Do meu açúcar
Na salgadura
Das ondulações do teu mar!

Ou ainda a nostalgia
Dum pôr-do-sol a entardecer
A luz do teu dia
Eu era a delicadeza
Duma brisa
A sussurrar-te o amanhecer!

Era a noite solitária
A beijar a insónia
Da tua madrugada
Uma mania
D’aurora adiada
Na maré da tua praia!

Era a melodia
Do trecho
Do canto dum riacho
Harmonia
D’águas a batucarem pedras
E a polirem lascas ásperas!

Um aceno distante
No anoitecer
Da tua noite
Dormida-acordada
Eu era o kwanza da tua almofada
A balbuciar-te o alvorecer!


Décio Bettencourt Mateus in "Xé Candongueiro!"

Luanda, 07 de Junho de 2007.

* Kwanza: rio de angola.

Monday, March 14, 2011

CRAVOS DA VERDADE

Que importam as dores duma verdade
sonho-realidade
e a tranca da porta
cravada nos sonhos
e desenhos
que arquitetamos em noite farta?

Que importa afinal o ruído inconfesso
nos teus passos esquivos
e furtivos
a ornamentarem horizontes
e fontes
dum qualquer outro verso?

Dorido escuto no silêncio das estrelas
o cântico das promessas
que cantaram nossas águas
em noites mornas de conversas
e luas
num ritual de whisky e velas!

Que importam os cravos da verdade
e espinhos da saudade?
estacionei numa noite de luar
e astros a sonhar
estacionei falas mansas
e saboreei tuas promessas!

Importa a distância no teu olhar?
Cruzei as ondas do mar
mergulhei fundo
vasculhei nosso mundo
no teu olhar perdido
vasculhei nosso mundo num coral escondido!

Importa tua mala arrumada
e vazia de promessas
a cruzar a estrada
e embalar novas pressas?
Importa? Sou sono dum tempo distante
e me assentei no cimo da nascente!


Décio Bettencourt Mateus.

in Xé Candongueiro!

Luanda, 09 de Maio de 2007.

Wednesday, November 17, 2010

E TAMBÉM OS PEQUENOS…

E também os pequenos
virgens d’anos
e inocentes d’inocências
nas costas uma zunga d’andanças
e vivências
a deambular caminhos d’esperanças!

Também a garotada
a cavalgar avenidas
e cacos da vida
ruelas, uma zunga de vida fatigada
nas costas da mãe zungueira
a calcorrear vida vendedora!

E aspiram sol da dureza
a miudagem a brotar indigente
caminhada ambulante
Sol d’asperezas:
o meu futuro são árvores abandonadas
nos cantos da esquina da vida!

E fogem pendurados nos panos
em pernas zungueiras
lascas de zunga
a dialogar distância longa:
o meu futuro são gotas de poeiras
e lixo na inocência d’anos!

O meu futuro uma hipoteca
de fome faminta
a deambular praças barulhentas
e gente esfomeada
de ruas alagadas
o meu futuro, uma dor de fome seca!


Décio Bettencourt Mateus.

in "Xé Candongueiro"

Luanda, 10 de dezembro de 2007.

Wednesday, September 22, 2010

FALAM INCOMPLETAS...

Falam incompletas
Tuas palavras incompletas de voz
A disparar veloz
A melodia do telemóvel:
“…Yá, mas não vai ser possível”,
Tua voz de certezas incertas!

Cantam incompletas e evasivas
Tuas gingas altivas
Nas estradas do meu mar
Falas mansas de luar
Melodia na voz do telemóvel:
“Talvez p’ra semana”. Doce nega afável!

Ondulam rios de brincadeira
Nas tuas margens
A desenharem-me nuvens
Depois teu andar chocalho
Um sorriso um brilho
Um doce ocultar desejo-ira!

Dizem-me esquivas tuas manias
Dias e depois dias de jejum e dias
A doerem-me as noites
Açoites no vazio
Do teu silêncio
Açoites em minhas incertezas inertes!

Cantam pássaros quando passas de esguelha
E teu sorriso num cora-brilha e brilha
Tua voz sussurro distante
Murmúrio ofegante
Coisas d’ondas do mar
Coisas de desejos no meu peito a latejar!


Décio Bettencourt Mateus

in Xé Candongueiro!

Luanda, 31 de Março de 2008.

Tuesday, August 24, 2010

A DOR DA POESIA!

Corre os musseques distantes
Entra as kubatas
De lata
Respira o fumo da lenha
E traz o murmúrio das gentes
A batucar o cacimbo da manhã!

Escuta as gentes empobrecidas
E desentendidas em lamúrias
E gritarias
De fome
As gentes esfomeadas
E vivenciadas de vexame!

Senta-se nas tabernas barulhentas
E fedorentas
Vozes pastosas de bebedeiras
Sanzaleiras
Vozes embriagadas
A cambalearem as estradas!

Grita o lamento dos matos
O olhar cansado das distâncias
A lenha nos lombos
O cansaço aos tombos
Na dor dos dias
E umas mãos a sorrirem maus-tratos!

Traz a algazarra dos musseques atrasados
Peitos furiosos sem camisa
O ciúme
A porrada em casa
A fome
Na violência dos musseques abandonados!

Escreve a voz das gentes analfabetas
Nas ruelas das kubatas
As gentes sofridas da hipocrisia
Dum discurso polido
E armadilhado

E ao pôr-do-sol cantará seu mistério: poesia!


Décio Bettencourt Mateus

in Xé Candongueiro!

kubata: casa pobre feita de lata, por exemplo.
musseque: bairros pobres
cacimbo: estação fria

Paris, 28 de Março de 2007.

Monday, July 26, 2010

MINHA ANDORINHA

Minha andorinha
Bate asas e rasga céus
E voa a tardinha
A brincar os aléns
Das nuvens
Voa andorinha dos sonhos meus!

Minha andorinha
Navega tardes e céus
E destapa véus
De distâncias
Voa andorinha minha
Uma maré suculenta de dias!

Caminhará a face de Deus?
Ruma o infinito
Dos céus
E no meu peito
Uma nostalgia a voar
Uma nostalgia de luar!

Minha andorinha
Brinca desafio aos céus
Belisca a face de Deus
E leva minha mensagem
Selada numa nuvem
Leva andorinha minha!

Oh! Minha andorinha
Vai a desbaratar os céus
Da noitinha
E rasga eternidades
D’infinidades
Voa andorinha minha a face de Deus!


Décio Bettencourt Mateus

in Xé Candongueiro!

Luanda, 26 de Julho de 2007.

Wednesday, June 23, 2010

XÉ CANDONGUEIRO!

Candongueiro tem pressa
Sobe na baúca
Não tem conversa
Condução louca
Pé no acelerador, velocidade
Não respeita prioridade!

Eh! Candongueiro dono da estrada
Ultrapassa pela direita
Manobra arrojada
Ultrapassa
Vuza na estrada estreita
“Trabalha não dá confiança”, tem pressa!

Candongueiro abarrotado
Não afrouxa na lomba
Leva gente p’ra mutamba
Pé no acelerador, velocidade
Dono da cidade
“Dinheiro trocado, dinheiro trocado!”

Eh! Candongueiro tem cobrador
Que grita: 1. de Maio, Maianga, Maianga…
Pé no acelerador, zunga-que-zunga
Abarrotado de gente
Não respeita cliente:
“Ou encosta ou desce meu senhor!”

Zé Pirão, São Paulo, Roque
“Não há maka emagrece meu kota”
Candongueiro manda na estrada
Leva gente do musseque
Gente enlatada
Roda batida é dono da rota!

“Trabalha não dá confiança”
Prenda, Mulembeira, Mulembeira
Leva gente do povo gente da praça
Candongueiro transporte do povo
Não é carro novo
Arranca levanta poeira!

Zunga-que-zunga sobe o passeio
Carro cheio
Xé candongueiro
Respeita passageiro
E espera prioridade
Candongueiro é dono da cidade!

Eh! Candongueiro é gente importante
No carro velho
Leva gente p’ro trabalho
Carrega gente descarrega gente
Ku Duro música alta
Xé candongueiro olha multa!


Décio Bettencourt Mateus

In Xé Candongueiro!

Luanda, 05 de Dezembro de 2006.


Xé : atenção !, cuidado !
Candongueiro : espécie de mini-autocarros – normalmente Toyota Hiace ou Comuter, azul e brancos – que se dedicam ao transporte de pessoas.
Baúca: espaço adjacente à parte de trás dos bancos da frente, i.e. do motorista e outros.
Emagrece: em linguagem popular do candongueiro quer dizer que o cliente deve encostar-se o máximo que puder, para que outro cliente possa sentar-se.
Ku duro: estilo musical made in Angola, em moda.
Kota: mais velho, pessoa de respeito.

Tuesday, May 18, 2010

UM CAFUNÉ MÃEZINHA!

À memória de Luzia Bettencourt M., minha mãe.



Um cafuné mãezinha
Um cafuné na minha carapinha
Mimos e carícias nos meus cabelos
Numa brincadeira de assim
Meu cabelo ruim
E teu cafuné a embalar meus pesadelos!

Um cafuné na minha carapinha
Teus dedos mãezinha, rios
E estrelas nos receios
E caminhos dos meus cabelos
Teus dedos tranquilos
A me afagarem assim mãezinha!

Um cafuné a embalar meus medos
E o amor a brotar e a jorrar
Na minha carapinha
Que eu oiço a voz do luar
Mãezinha
Oiço o luar nos teus dedos!

Um cafuné e conta-me estórias
E sabedorias:
“Era uma vez, o coelho e o macaco…”
Uma estória de carapinha
A adormecer noitinha
E eu durmo o embalo do teu cântico!

Os caminhos do dia correm pantanosos
Os silêncios da noite misteriosos
Eu em medos e manias
À espera das tuas estórias
Teu cafuné mãezinha
A adormecer-me a carapinha!

Oh! A noite é dura
E eu durmo insónias na noite escura
A sonhar teu cafuné mãezinha
Minha carapinha castanha
Meu cabelo ruim
À espera mãezinha, num cafuné de assim!

Um cafuné mãezinha
Um cafuné na minha carapinha!

Luanda, 20 de Janeiro de 2007.

Décio Bettencourt Mateus

in Xé Candongueiro!

Luanda, 20 de Janeiro de 2007.

Monday, April 19, 2010

SÃO PEDRO NA SUA INOCÊNCIA…

São Pedro na inocência
Das alturas dos céus
Desvenda véus
Vaidades
E intranquilidades
De fatos e gravatas de importância!

São Pedro na abundância
Dos céus das alturas
Desenrosca torneiras
E ordena águas:
A minha cidade um mar de lagoas
E enxurradas de putrescência!

Os pés encardidos andantes
Nas pernas das gentes
Marcham palmas
Chafurdam lamas
E galopeiam riachos e pântanos
De corroídos abandonos!

Caminhares lamacentos
Arrastam lamaçal d’avenidas
Enlameadas
A minha cidade jardim de desencantos:
Gravatas luzidias
Mentem o anoitecer dos dias!

Águas e lamas pastosas
Molestam casas
Vozes vomitam lágrimas
Mãos à cabeça lamuriam problemas:
É que São Pedro na sua inocência
Desnuda vergonha d’apetências!


Décio Bettencourt Mateus

in Xé Candongueiro.

Luanda, 6 de Dezembro de 2007.

Friday, March 19, 2010

NEGRA DA TERRA

Negra de carapinha dura
Não estraga teus cabelos,
Me jura.
(Teta Landu*)

Minha negra brinca a gingar
Magia da kianda
Negra anda-que-anda
E ginga-que-ginga
Andar de negra é banga
Andar de negra é cântico do mar!

Minha negra ginga elegante
Nas curvas duma viola
Nas ondulações duma mbunda
Negra ginga e rola
E encanta gente
Ginga e rola a negra linda!

Ginga de negra é cântico do mundo
Não usa coisas de tissagem
Usa tranças de bailundo
A negra jovem
E ginga-que-ginga a dançar
Ginga nas ondas do mar!

Minha negra mulher cristalina
Não usa coisas de postiços
Usa carapinha
E tranças de linha
E tem magia de feitiços
A preta africana!

Minha negra beleza genuína
Ginga-que-ginga
Dança-que-dança a preta angolana
Minha negra mulher da terra
Mulher negra
Penteado à africana!

Minha negra mulher formosa, mulher cheia
Mbunda farta
Não conhece cabeleireira alheia
Usa carapinha de preta
E traz na voz a tradição negra
Traz na voz o pulsar da terra!

Décio Bettencourt Mateus

in Xé Candongueiro!

*Teta Landu: músico angolano.

Tuesday, February 23, 2010

DEBITAS-ME SILÊNCIOS…

Debitas-me silêncios
E reticências…
Quando na dureza da voz macia
Dos teus lábios
Ornamentas flores e lavras
No silêncio das tuas palavras!

Debitas renúncias
E crucificas-me as mazelas:
Teu olhar fala-me paisagens
Rosas e margens
A brincarem às estrelas
Quando finges silêncios e reticências…

E na dureza da ausência
Um sopro distante
Angustiante
Um silêncio de melancolia
Na voz da noite do luar
Uma eternidade nos dias a folhear!

Debitas-me silêncios
E açoites de negativas
Em palavras altivas
À noite murmuras balbucios
Ao frio d’almofada
E lamurias nossa paixão crucificada!

Asseveras-me a justiça
A transbordar motivos mil
Flechas e açoites
No mistério do frio das noites;
Uma taça
E champanhe: a noite convida-nos dócil!


Décio Bettencourt Mateus

in "Xé Candongueiro".

Monday, January 25, 2010

O JULGAMENTO

Uma maré de leis
Adormecidas em papéis
Uma severidade de martelo
Martela a sala
E o réu treme o cabelo
E se cala!

A toca do Juiz ajuiza
Uma sentença
De laboratório
O réu suspira um murmúrio
De esperança
E o Juiz ajuiza a causa!

Meritíssimo, o réu é inocente
Bradará a voz do céu
Na voz da gente
Da defesa do réu
E o Juiz ajuiza soberano
Montado no trono!

Meritíssimo, elevados
E importantes serviços prestou à nação
O réu. Rogamos absolvição
Bradarão advogados
O martelo da justiça martela
E a sala se cala:

Conduzam o réu à cadeia!
Sentenciará uma (in)justiça
De sentença
A multidão das gentes
Em surdina protesta e vaia:
Inocente, inocente, inocente…

O martelo da (in)justiça pavoneia
E (re)sentencia
Insistente:
Conduzam o réu à cadeia!

Inocente, inocente, inocente…
Clamará a surdina de enfurecida gente


Luanda, 26 de setembro de 2007.

in "Xé Candongueiro"

Tuesday, January 19, 2010

Convite - Lançamento de "Xé Candongueiro"


Mulembeira tem o prazer de convidar os seus amigos, leitores e visitantes à cerimónia de lançamento do mais recente livro de Décio Bettencourt Mateus, "Xé Candongueiro", a acontecer nesta quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010, as 17h30, na sede da União dos Escritores Angolanos (UEA).

O livro, uma edição da UEA, é composto por trinta poemas, distribuídos em oitenta e duas páginas e prefácio do galego Xosé Lois Garcia.
Adriano Botelho de Vasconcelos, escritor e actual Secretário Geral da UEA, fará a apresentação do mesmo.

Mulembeira muito vos agradeço.




Wednesday, December 30, 2009

Catê 2010!

Mulembeira deseja-vos um 2010 robusto de saúde, sonhos, ânimo e perseverança. Os complementos – sucesso por exemplo – virão, naturalmente, por acréscimo. Agradece também, de coração, os votos de ano novo recebidos.

Alegra-se muito pelas vossas visitas e/ou comentários, pelo que tremendamente agradece – graças aos quais, Mulembeira preserva. Deseja que esta cumplicidade poética e amizade continuem em 2010 e muitos outros afora.

E despede-se de 2009 com mais um poema de “Xé Candongueiro”, que Décio Bettencourt Mateus dedica à sua cara-metade, a Eva Fraio.

Kandandu e catê 2010!



AS ONDAS DO NOSSO MAR
À minha esposa, Eva Fraio.



Depois da salgadura
Das praias da ilha do nosso mel
N’algumas ondas do nosso mar
Um sopro de brisa a cantar
Um cântico afável
De amores e ondas de doçura!

Depois duma fúria d’enchente
A protestar rochas
E areias e conchas
No lago do nosso mar
Uma calmaria d’horizonte
A apascentar nossas águas a marejar!

E um bater d’ondas tranquilo
Na ilha do nosso Mussulo
A espumar amores pitorescos
Nas areias da praia
Das pedras da nossa baía
Um bater de cânticos românticos!

E serei os trajes do rei-sol majestoso
Nas ondas do teu mar
A navegar e arfar
Desejos e gozo
De estrelas-do-mar e luas
Nas ondas femininas das tuas águas!

Serei a doçura da salgadura
E bravura
Das ondas do nosso rio
Um murmúrio
D’amor a sussurrar
Coisas d’arco-íris nas ondulações do teu mar!


Décio Bettencourt Mateus

In Xé Candongueiro!

Luanda, 26 de Outubro de 2007.

Thursday, December 17, 2009

O MEU AMO

O meu amo em fúrias
E falas de arrelias
Aportou mal-humorado ao palácio
Dos sonhos e silêncio
E num estrondo resoluto
Gritou ser amo e amante absoluto!

Trovejou fortes trovoadas
Arregaçou uma camisa
De costas corroídas de pobreza
E magreza
Trovejou às paredes de casa
E tempestuou páginas revoltadas!

Mostrou um peito desmusculado
Diluído em mágoas de álcool
E cansaços de sol
Um velho-peito-robusto
Desgastado e agastado
Em magras costelas de desgosto!

Gritou gestos abruptos
No vazio das panelas
Dos bolsos rotos
Gritou desespero às janelas
E resmungou um silêncio amuado
Um silêncio, o meu pobre amado!

Depois procurou meus mistérios
E o mansinho dos delírios
Conduziu-me a novos portos
Ressonou a nova aurora
Com ventos d’outrora
Ressonou um sonho de gemidos fartos!


Décio Bettencourt Mateus

in Xé Candongueiro.

Luanda, 23 de Abril de 2007.

Tuesday, November 24, 2009

O SILÊNCIO DAS GENTES

Um silêncio e passos d’homens importantes
Ecoam chão de mosaicos
Poc, poc, poc…ecos
E fatos enfatados
E engravatados
D’homens importantes que as gentes!

Um microfone num discurso sábio
Regado de palavras sábias
O silêncio cúmplice dos dias
No silêncio do silêncio
Das gentes cansadas das oratórias
E discursos de hipocrisias!

Uma torrente de palavras rechonchudas
Um desfile de sapiência
Em gravatas abastadas
As minhas gentes caminham mudas
E desesperam paciência
Na dor do alvorecer de madrugadas!

Quem compra os espinhos das gentes
No suor da caminhada?
Passos d’homens arrogantes
Ecoam mosaico d’estrelas
Eu rezo as velas
Das gentes perfiladas nas estradas!

As minhas gentes suam injustiça dos dias
E dor das noites silenciadas
Magricelas
No palácio das estrelas
Gravatas abastadas
Festejam hipocrisia de palavras sábias!

A minha noite adormece entristecida
Na cobardia da gente emudecida!


Décio Bettencourt Mateus.

Luanda, 25 de Julho de 2007.

In "Xé Candongueiro".

Sunday, November 08, 2009

E OS HOMENS DA TERRA...

E os homens da terra
Sentaram-se! Frutos silvestres
Emprestaram sabedoria e sombra
Poeiras campestres
Abençoaram papeladas
E acordos nos matos das picadas!

Um vento a soprar agreste
As terras do leste
Falou-me d’homens sentados
Em troncos e pedras
A falarem acordos e palavras
E obuses de canhões silenciados!

A taça do sangue das armas
Entornou-se! Batuques e lágrimas
Das gentes magricelas
A espreitar homens da terra
Sentados, a falarem paz em palavra
E sonhos e acordos d’estrelas!

A tumba dos homens apagados
Em camuflados e botas
Aplaudiram palmas
Kazumbis e almas
Dançaram alegria nas matas
E homens sentaram pedras d’acordos!

E as patentes da terra
Conversaram! Calaram-se ruídos
E fuzis d’homens fardados
A barulhar palavras e guerras
Conversam os homens nas pedras
E nos troncos dos acordos!

E os homens da terra conversaram!


Décio Bettencourt Mateus.

Luanda, 26 de Novembro de 2007.

in "Xé Candongueiro"

Tuesday, October 06, 2009

UM HOMEM NUM McDonald’s!

Um homem das áfricas longínquas
Num McDonald’s das europas
A tremer o frio nas roupas
A esconder as mágoas
E miséria das terras ricas
E sofridas das áfricas!

Senta-se faminto num canto
O cansaço da África
A desilusão da Europa branca
No rosto esfomeado
Senta-se ao meu lado
A dor d’África no pensamento!

Traz a fome dos dias a roer
O homem num McDonald’s das europas distantes
A África e suas gentes
A roer, a moer
E um homem senta-se perdido nas europas
A tremer o frio nas roupas!

A África atrasada, distante
A poeira e gritaria de desentendimentos
Dos homens arrogantes
Europa, o paraíso, fica num além
Dissipado numa nuvem
E o “um homem” senta-se nos seus pensamentos!

E parte perdido na ilusão das europas brancas
A vergonha das áfricas ignorantes
E suas gentes
A barriga de fome a roer
A vergonha a doer
E um homem parte na desilusão das áfricas!

Décio Bettencourt Mateus

in "Xé Candongueiro"

Sunday, September 13, 2009

TEU ROSTO TARDIO

Quando em teu rosto tardio
O bafo das noites
D'orgias
Serei-me nos açoites
Da dor pungente dos dias
A verter lágrimas de dorido silêncio!

Quando em teu hálito a miúdas
Whiskies e cavalgadas
D'avenidas de prazer
Serei o rosto de mulher
A vigiar-te as noites
Guardando-te os espasmos dos meus limites!

Quando na correnteza da noite
Tropeçares amanheceres
E gemidos de mulheres
Serei um qualquer zénite
A rezar-te a demora nas noitadas
A velar-te os passos nas estradas!

E serei tímida
Reservado águas quentes
À doçura do teu pólen
Serei-me em teu cheiro másculo d'homem
Gemidos ardentes
E suspiros em minha janela húmida!

Serei-me de vigília
A vigiar-te os passos da noite
Álcool, tabaco, música e prostitutas
Serei o amanhecer do dia
Uma porta um convite
Migalhas do teu pólen em minhas águas sedentas!

Luanda, 24 de Abril de 2008

Décio Bettencourt Mateus

In Xé Candongueiro*

* Mini autocarros que fazem serviço semelhante a táxi.

Monday, July 13, 2009

POEIRA VOLTOU

Poeira, o chefe do posto
Voltou
Mudou de nacionalidade
Cor e rosto
E voltou com sua brutalidade
Mudou de nacionalidade e regressou!

Poeira voltou
Para kuatar os filhos dos outros
Para kuatar os filhos dos negros
Mudou de rosto
E regressou
Mudou de rosto e regressou para nosso desgosto!

Poeira voltou
E anda pelos musseques do Rangel, Sambizanga, Samba…
São Paulo, Baixa, Mutamba…
Poeira regressou
Para novamente kuatar os filhos dos outros
Para novamente kuatar os filhos dos negros!

E andam muitos, um, dois, três, quatro Poeiras…
Andam em carrinhas pela cidade
Atrás das vendedoras
Atrás das zungueiras, com brutalidade
Poeira voltou
E cabeças a abanarem de desgosto, hum, hum, Poeira regressou!

Poeira voltou
E desce da carrinha armado a correr
Desce da carrinha armado e toca a bater
Porrada na zungueira
Porrada na vendedora
E mãos na cabeça em lamentos, aiué, aiué, Poeira regressou!

Poeira voltou
Recebe o negócio das zungueiras
Bate nas vendedoras
E corrida com os ambulantes
Poeira voltou, kibutos apressados em cabeças descontentes
E pensamentos revoltados, hum, hum, Poeira regressou!

Poeira voltou
Kibutos espalhados no passeio
Ponta-pés impiedosos no negócio da vendedora
Ponta-pés no ganha-pão da zungueira
Poeira voltou, ponta-pés implacáveis no suor alheio
E corações ressentidos, hum, hum, Poeira regressou!

Poeira, o colono que kuatava os filhos dos outros
O colono que kuatava os filhos dos negros
Mudou de cor e voltou
Mudou de nacionalidade e regressou
Poeira voltou e bate na vendedora
Poeira voltou e recebe o negócio da zungueira!

Poeira, o chefe do posto
Mudou de nome e nacionalidade e voltou com outra cor e outro rosto!


Kuatar: agarrar, prender
Zungueira: vendedoura ambulante
Kibutos: coisas, pertences

Décio Bettencourt Mateus

In “Os Meus Pés Descalços”

Friday, May 29, 2009

DIFERENCIAÇÕES

Dentro do compartimento
De um luxuoso apartamento
Alguém ri,
A vida é bela e para ele sorri
Montes de dinheiro são contados
Montes de dinheiro serão depositados

Enquanto isto, lá fora
Gente que dorme ao relento
Gente que não tem tecto
Prepara-se para andar à porrada
Prepara-se para andar à bordoada
Vai haver pancadaria à qualquer altura

Dentro do compartimento
De um luxuoso apartamento
A alegria é visível,
A cumplicidade é inviolável
Mais um carro de luxo comprado
E mais outro bem (ilicitamente) adquirido

Enquanto isto, lá fora
Há problemas, há makas
Puxam-se facas
Cacos de garrafas em mãos raivosas
Falares de revolta em vozes furiosas
Vai haver pancadaria à qualquer altura

Dentro do compartimento
De um luxuoso apartamento
Faz-se amor, amor proibido
Amor pecado
Mais uma amante conquistada
Mais uma mulher enganada

Enquanto isto, lá fora
Gente esfomeada às guerras
Gente esfomeada às turras
Turras por um pedaço de pão
Turras pelo espaço na cama-chão
Vai haver pancadaria à qualquer altura!

Dentro do compartimento
De um luxuoso apartamento
Tudo bem, ri-se à toa
Afinal a vida é boa
O lucro fácil, é fácil de se conseguir
É fácil de se dquirir

Enquanto isto, lá fora
Adolescentes vadios
Descarregam entre si ódios,
Há no ar ameaças de morte
Há gritos por toda parte,
Entretanto a noite é avançada em hora
E vai haver pancadaria à qualquer altura!

Décio Bettencourt Mateus

in "A Fúria do Mar"



Saturday, April 18, 2009

JÚLIA, A DANÇARINA

Movimenta-se para trás e para frente
São graciosos os seus movimentos
Movimenta-se alegre e contente
E mil pensamentos
Cintilando em mim
Mil pensamentos desfilando sem fim

E sorri de quando em quando
É bonito o show dos seus movimentos
É bonito o show e mil pensamentos
Malandros em minha mente
Enquanto Júlia balanceia o corpo ora para frente
Ora para trás e eu apreciando

Balanceia o corpo, movimentos insinuantes
Em sua ingenuidade de mulher-menina
Balanceia o corpo, movimentos cativantes
Júlia, a dançarina
A dar espectáculo de graça
A dar espectáculo, a mulher-criança

E volta e meia, sorri aqui para o lado
Sorriso-convite, sorriso malandro
A sugerir encontro
Júlia, mulher-menina
Mulher dançarina
A dar show para mim, seu apaixonado

E vai viajar a Júlia, a dançarina
Vai para o norte, talvez para o Uíge
Ou outra província mais longe
Vai-se embora a minha dançarina-menina
Vai dar show para um outro qualquer
Júlia, meu amor menina-mulher!

Júlia, a menina-dançarina
Vai dançar para um homem qualquer do norte
Ou mesmo de outra parte
Júlia menina linda
Meu amor relâmpago do aeroporto de Luanda
Júlia, a minha dançarina-menina!

Décio Bettencourt Mateus

in "Os Meus Pés Descalços"

Tuesday, November 04, 2008

DE NOVO RECOMEÇAR

Novamente
E mais uma e outra vez
De novo começar
De novo no desejo de recomeçar
Vencer a indecisão, a dúvida e o talvez
E tudo de novo recomeçar pacientemente

De novo começar
De novo e outra vez mais, tudo recomeçar
Timidamente
Quiça mesmo envergonhados
E acanhados
Mas de novo tudo recomeçar novamente

De novo recomeçar
Com o raiar do sol madrugador
De novo tudo iniciar
Com o cantarolar do galo-despertador
Novamente
Tudo de novo recomeçar pacientemente

Sempre recomeçar
Mais uma vez e outra mais e ainda outra
Recomeçar na reconciliação da palavra
Na reconciliação do gesto amigável
E afável
E novamente tudo de novo começar

E de novo, novamente recomeçar
Com o despertar do farfalhar
Sorrateiro da perna
Com o cheiro inconfundível do desejo sexual
Matinal
De novo tudo recomeçar que vale a pena!

E outra vez mais, de novo começar
Tal como no princípio, com o desejo vivo e ardente
O amor será o lubrificante
Do reencontro dos corpos sedentes
E carentes
O amor (re)brotará cristalino debaixo lençol
Neste de novo tudo de novo recomeçar
Apadrinhado pelo raio matinal de sol!


Décio Bettencourt Mateus

in "A Fúria do Mar"